Page 133 - 6F CINCO SEMANAS EM UM BALÃO
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A HISTORIA DE Joe





      Que fora feito de Joe durante as buscas inúteis do amo?
      Ao precipitar-se no lago, o seu primeiro movimento à  superfície foi olhar para cima. Viu o
      Vitória, já muito alto,  subir com enorme rapidez, que em seguida decresceu pouco  a pouco e,
      logo  depois,  levado  por  forte  corrente,  desaparecer    para  o  norte.  Seu  amo,  seus  amigos
      estavam salvos.

      – Foi uma sorte  pensou  eu ter tido esta idéia de  atirar-me ao Tchad. Ela não deixaria de
      ocorrer ao senhor  Kennedy e sem dúvida ele não hesitaria em fazer o mesmo  que eu, pois é
      muito natural que um homem se sacrifique  para salvar outros dois. Isto é infalível.
      Tranqüilo  a  esse  respeito,  Joe  cuidou  de  pensar  em  si.    Estava  no  meio  de  lago  imenso,
      cercado de tribos desconhecidas e provavelmente ferozes. Mais uma razão para tentar  sair do
      apuro, contando apenas consigo, e nem por isso se  assustou mais.

      Antes  do  ataque  das  aves  de  rapina,  que  na  sua  opinião    se  tinham  conduzido  como
      verdadeiros abutres, ele avistara  uma ilha no horizonte. Resolveu dirigir-se para ela e pôs-se
        a  desenvolver  todos  os  seus  recursos  em  matéria  de  natação,    depois  de  haver-se
      desembaraçado da parte mais incômoda  das roupas. Um passeio de nove ou dez quilômetros
      não  o  preocupava  muito,  de  modo  que  ao  ver-se  em  pleno  lago  só  pensou  em  nadar
      vigorosamente. Ao cabo de hora e meia,  a distância que o separava da ilha já era pequena.
      A  medida,  porém,  que  se  ia  aproximando  da  terra,  uma    idéia,  a  princípio  vaga  e  logo

      persistente, apoderou-se de seu  espírito. Sabia que as margens do lago estavam coalhadas de
      enormes crocodilos e conhecia a voracidade de tais feras.
      Embora  fosse  hábito  seu  achar  tudo  muito  natural  neste    mundo,  o  digno  moço  sentiu-se
      invencivelmente perturbado.  Receava que a carne branca fosse especialmente do agrado dos
      crocodilos e avançou com as maiores precauções, de olho  à espreita. Não distava mais de
      uma centena de braços de  uma das praias sombreadas de árvores verdes, quando uma  lufada

      de ar, carregada de penetrante aroma de almíscar, o  envolveu.
      – Bem!  disse ele  eis aí o que eu temia. O crocodilo  não anda longe!
      E  mergulhou  rapidamente,  mas  não  tanto  que  lhe  permitisse  evitar  o  contacto  de  um  corpo
      enorme cuja epiderme  escamosa o arranhou de passagem. Julgou-se perdido e saiu  a nadar
      com desesperada velocidade. Voltou à tona, respirou  e tornou a desaparecer. Teve ali um
      quarto  de  hora  de  indizível  angústia  que  nem  toda  a  sua  filosofia  pôde  vencer,  julgando
      sempre ouvir atrás de si o ruído daquela vasta mandíbula pronta e devorá-lo. Ia deslizando

      entre duas águas, o  mais devagar possível, quando se sentiu seguro por um braço  e, depois,
      pelo meio do corpo. Pobre Joe! Depois de último  pensamento ao amo, rompeu a lutar com
      desespero,  sentindo-se  atraído  não  para  o  fundo  do  lago,  como  é  costume  fazerem  os
      crocodilos para devorar a presa, mas para a superfície. Mal pôde respirar e abrir os olhos,
      viu-se  entre  dois    negros  cor  de  ébano.  Os  africanos  seguravam-no  fortemente,    soltando
      estranhos gritos.

      – Que diabo!  não pôde Joe impedir-se de exclamar   negros em vez de crocodilos? Bolas!
      Prefiro isto! Mas  como é que estes velhacos ousam banhar-se nestas paragens?
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