Page 134 - 6F CINCO SEMANAS EM UM BALÃO
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Joe ignorava que os habitantes das ilhas do Tchad, como muitos outros pretos, mergulham
impunemente nas águas infestadas de crocodilos, despreocupados da sua presença. Os
anfíbios daquele lago gozam da merecida reputação de sáurios inofensivos.
Mas não teria Joe evitado um perigo justamente para cair noutro? Foi o que deixou aos
acontecimentos decidirem e como nada podia-fazer consentiu que o levassem para a margem
sem mostrar o menor temor.
"Sem dúvida disse consigo esta gente viu o Vitória passar sobre as águas do lago como
monstro dos ares. Testemunhou de longe a minha queda e não pode deixar de ter deferências
com um homem caído do céu! Vamos a ver o que acontece!”
Assim refletia Joe no momento de chegar a terra, em meio a uma turba ululante, de todos os
sexos, de todas as idades, mas não de todas as cores. Achava-se numa tribo de biddiomahs de
esplêndida negrura. Nem sequer teve de corar pela sua roupa sumária, pois encontrava-se
despido segundo a moda do país .
Antes, porém, de ter tempo de pensar na sua situação, notou as adorações de que era objeto, o
que não deixou de agradá-lo, embora lhe voltasse à memória o episódio de Kazeh.
"Pressinto que vou tornar-me um deus, um filho da lua! Pois bem! Tanto vale este ofício como
outro, visto não haver por onde escolher. O essencial é ganhar tempo. Se o Vitória tornar a
passar, aproveitarei a minha nova posição para dar aos meus adoradores o espetáculo de uma
ascensão miraculosa." Enquanto refletia desse modo, a turba comprimia-se em redor dele.
Prosternava-se, uivava, apalpava-o, ia-se familiarizando, mas ainda assim teve a idéia de
oferecer-lhe festim magnífico, composto de leite azedo com arroz moído e mel. O digno
moço, tirando partido de tudo, fez então uma das melhores refeições da sua vida e deu ao seu
povo uma alta idéia do modo como os deuses devoram nas grandes ocasiões.
Ao cair da noite, os feiticeiros da ilha tomaram-no, respeitosamente, pela mão e conduziram-
no a uma espécie de casa cercada de talismãs. Antes de entrar, Joe lançou olhar bastante
inquieto aos montes de ossos que se erguiam à volta do santuário, ficando-lhe muito tempo
para meditar na sua situação depois de ser fechado na cabana.
Durante uma parte da noite ouviu cantos festivos, os rufos de uma espécie de tambor e tinir de
ferros, decerto bem suaves para ouvidos africanos. Coros de uivos acompanharam danças
intermináveis que envolviam a sagrada cabana em suas contorções e caretas.
Joe pôde observar o conjunto atordoante através das paredes de barro e bambu da cabana.
Talvez em qualquer outra circunstância experimentasse vivo prazer em contemplar aquelas
estranhas cerimônias, mas não tardou a atormentá-lo uma idéia bastante desagradável. Mesmo
tomando as coisas pelo pouco.
Seu lado melhor, achou idiota e muito triste estar perdido naquela terra selvagem, entre
semelhante gente. Poucos viajantes haviam tornado a ver a pátria depois de se terem
aventurado até aquelas paragens. Podia, além disso, confiar na adoração de que se via
objeto? Boas razões tinha para acreditar na vaidade das grandezas humanas! E perguntava a
si mesmo se naquela terra a adoração não iria até ao extremo de comer o adorado.
A despeito da perspectiva, após algumas horas de meditação, a fadiga prevaleceu sobre as
idéias sombrias, e Joe caiu em sono bem profundo, que decerto se prolongaria até ao romper
do dia seguinte se inesperada umidade não acordasse o dorminhoco.
A umidade não tardou a fazer-se água e a água subiu tanto que lhe chegou à cintura.
"Que diabo será isto? perguntou-se. Inundação? Tromba? Ou algum novo suplício destes

