Page 135 - 6F CINCO SEMANAS EM UM BALÃO
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:pretos? Por Deus! não esperarei que ela me suba ao pescoço!”
      Assim  dizendo,  derrubou  a  parede  com  um  encontrão.    E  onde  pensa  o  leitor  que  ele  se
      encontrou? Em pleno lago!  Da ilha não restava mais nada, ficara submersa durante a  noite!

      Em seu lugar estava a imensidade do Tchad.
      – Triste país para os proprietários!  disse Joe, retomando logo as suas faculdades natatórias.
      Fenômeno  bastante  freqüente  no  lago  Tchad  libertara  o    animoso  rapaz.  Mais  de  uma  ilha
      assim  têm  desaparecido,    embora  parecesse  ter  a  solidez  da  rocha.  Muitas  vezes  as
      populações ribeirinhas têm de recolher os infelizes que escapam  a essas terríveis catástrofes.
      Joe ignorava tal particularidade, mas nem por isso deixou de aproveitar. Avistou um barco

      errante  do  qual  logo    se  aproximou.  Era  uma  espécie  de  tronco  de  árvore  grosseiramente
      cavado. Continha felizmente um par de pagaias e  Joe, servindo-se de corrente bastante rápida,
      deixou-se derivar.
      "Orientemo-nos  pensou ele. A estrela polar, que desempenha honradamente o seu ofício de
      apontar a rota do norte  a todo o mundo, não recusará vir em meu auxílio.”
      Percebeu  com  satisfação  que  a  corrente  o  levava  para  a    margem  setentrional  do  Tchad  e
      deixou-se  ir.  Pelas  duas  horas  da  manhã  desembarcava  num  promontório  coberto  de

      espinhosas  plantas,  excessivamente  importunas  mesmo  para  um    filósofo.  Mas  uma  árvore
      crescia ali, expressamente para oferecer-lhe leito em seus ramos. Joe escalou-a para maior
      segurança e, embora sem propriamente dormir, esperou o raiar do dia.
      Já a despeito dos maiores esforços e de desesperada resistência sentia-se aftendar pouco a
      A manhã chegou com a rapidez das regiões equatoriais  e Joe, lançando um olhar à árvore que

      o abrigara durante  a noite, ficou aterrado à vista do espetáculo que se lhe oferecia: os ramos
      da  árvore  estavam  literalmente  cobertos  de    serpentes  e  camaleões,  a  folhagem  quase
      desaparecia  sob  os    seus  entrelaçamentos.  Dir-se-ia  uma  árvore  de  nova  espécie,    que
      produzia  répteis.  Aos  primeiros  raios  do  sol  tudo  aquilo    deslizava  e  se  estorcia.  Joe
      experimentou  vivo  sentimento    de  terror  e  repugnância  e  pulou  para  o  chão  entre  o  silvar
       daquela companhia.
      – Aqui está uma coisa em que ninguém jamais acreditaria!  exclamou ele.
      Depois do que acabava de ver resolveu ser mais cauteloso  no futuro e, orientando-se pelo

      sol, pôs-se a caminho em direção ao nordeste, evitando com o maior cuidado cabanas,  casas,
      choças, covis, numa palavra: tudo o que pudesse servir  de asilo à raça humana.
      Quantas  vezes,  olhou  para  o  céu!  Esperava  avistar  o    Vitória,  mas  embora  o  buscasse
      inutilmente durante aquele  dia, isso não diminuiu a sua confiança no amo. É necessária  uma
      grande energia de caráter para encarar tão filosoficamente tal situação. A fome juntava-se à

      fadiga, porque a  nutrição de raízes, miolo de arbustos, frutos de palmeira não  sustenta um
      homem.  Apesar  disso,  conforme  o  seu  cálculo,    avançou  para  oeste  cerca  de  cinqüenta
      quilômetros. Seu corpo  guardava em muitos pontos os vestígios que milhares de espinhos dos
      arbustos  do  lago,  das  acácias  e  das  mimosas  tinham    deixado,  e  os  pés  ensangüentados
      tornavam-lhe a marcha extremamente dolorosa. Mas, enfim, conseguiu reagir contra as dores e
      ao entardecer resolveu passar a noite nas margens do  Tchad.
      Teve de suportar as atrozes picadas de miríades de insetos, moscas, mosquitos, formigas de

      meia polegada que cobrem literalmente o chão. Ao cabo de duas horas não restava  a Joe uma
      tira da pouca roupa que o cobria. Os insetos  haviam devorado tudo! Foi uma noite horrível,
      que, irão deu  ao cansado viajante uma hora de sono. Durante todo aquele  tempo os javalis, os
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