Page 89 - 6F CINCO SEMANAS EM UM BALÃO
P. 89

Nilo superior. Durante dois anos, sua religião foi repelida, seu zelo ignorado, sua caridade
      mal compreendida. Ficou prisioneiro de uma das mais cruéis tribos do Niambara alvo de toda
      a sorte de maus tratos. Mas continuava ensinando, instruindo, rezando. Dispersa a tribo que o

      deixou  por morto após um desses combates tão freqüentes entre as populações africanas, em
      vez de voltar prosseguiu na peregrinação evangélica. Seu tempo mais feliz foi aquele em que o
      tomaram  por  louco.  Familiarizou-se  com  os  idiomas  dessas    terras  e  entrou  a  catequizar.
      Enfim, durante mais dois longos anos percorreu aquelas regiões bravias, levado pela energia
       sobre-humana que vem de Deus. Havia um ano que estava residindo com a tribo dos Niam-
      Niam, chamada Barafi, uma das mais selvagens. Como o chefe tivesse morrido dias antes, a

      ele atribuíam essa morte inesperada, resolvendo imolá-lo.  Seu suplício durava já cerca de
      quarenta e oito horas e, como adivinhara o doutor, iria morrer ao sol do meio-dia. Ao ouvir os
      disparos  das  armas  de  fogo,  não  se  conteve  e  gritou  por  socorro,  acreditando  ter  sonhado
      quando uma voz vinda do  céu enviou-lhe palavras de conforto.
      – Não lastimo esta vida que me foge  acrescentou ele.  Minha vida pertence a Deus!  Não
      perca a esperança  tornou-lhe o doutor , nós  estamos aqui e havemos de salvá-lo da morte
      como já o salvamos do suplicio.

      – Não peço tanto a Deus  volveu o sacerdote resignado. Bendito seja Ele por me haver dado,
      antes  de  morrer,  alegria    de  apertar  mãos  amigas  e  de  ouvir  a  língua  da  minha  pátria!  O
      missionário  tornou  a  enfraquecer  e  o  dia  passou  assim    entre  a  esperança  e  o  temor,  com
      Kennedy e Joe emocionados, enxugando os olhos às escondidas.
      O Vitória andava pouco, o vento parecia querer poupar  o seu precioso fardo. Joe assinalou à

      tardinha  enorme  clarão    para  oeste.  Nas  latitudes  mais  elevadas  acredita-se  às  vezes    em
      grande  aurora  boreal.  O  céu  parecia  em  chamas.  O  doutor    foi  observar  atentamente  o
      fenômeno.
      – Só pode ser um vulcão em atividade  disse.
      Mas o vento leva-nos para cima dele  acudiu o outro.
      – Não faz mal. Passamos-lhe por cima a uma altura suficiente.
      Três  horas  depois,  o  Vitória  achava-se  em  plena  montanha.  Diante  dele  uma  cratera
      esbraseada golfava torrentes  de lava em fusão, projetando blocos de pedra a enorme altura.

      Havia  rios  de  fogo  líquido  caindo  em  cascatas  deslumbrantes.  Espetáculo  magnífico  e
      perigoso,  porque  o  vento,    com  fixidez  constante,  arrastava  o  balão  para  aquela  atmosfera
      incendiada.
      Era  necessário  transpor  aquele  obstáculo  que  não  se  podia  ladear.  O  maçarico  teve  a  sua
      chama aberta até ao máximo e o Vitória passou a quase mil e oitocentos metros de  altura,

      deixando entre si e o vulcão um espaço de mais de  seiscentos metros.
      Do seu leito de dor, o padre moribundo pôde contemplar a cratera em fogo donde fugiam com
      estrépito mil deslumbrantes girândolas.
      – Como é belo  disse ele  e como é infinito o poder  de Deus mesmo nas suas manifestações
      mais terríveis!
      Aquele  derrame  de  lavas  ígneas  revestia  os  flancos  da    montanha  de  verdadeiro  tapete  de
      chamas.  O  hemisfério  inferior  do  balão  resplandecia  na  treva  e  calor  tórrido  subia    até  à

      barquinha, onde o doutor Fergusson cuidava de fugir  àquela perigosa situação.
      Às dez horas da noite, a montanha já não era mais que  um ponto rubro no horizonte e o Vitória
      prosseguia tranqüilamente a sua viagem em zona menos elevada.
   84   85   86   87   88   89   90   91   92   93   94