Page 91 - 6F CINCO SEMANAS EM UM BALÃO
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A MORTE DE UM JUSTO





      Estendia-se sobre a terra noite magnífica. O sacerdote dormia em serena prostração.
      – Não escapará  observou Joe. Pobre homem, apenas trinta anos!
      –  Vai-nos  morrer  nos  braços!    disse  o  doutor  desanimado.  Sua  respiração  já  tão  débil
      enfraqueceu ainda mais.  Nada posso fazer para salvá-lo.
      – Infames!  volveu Joe. E pensar que este digno padre ainda encontrou palavras para lastimá-

      los e perdoá-los.
      – O céu dá-lhe uma noite bem linda, talvez a sua última  noite. De agora em diante, pouco mais
      sofrerá, a morte será  para ele um quieto sono.
      O moribundo sussurrou algumas palavras entrecortadas.  O doutor aproximou-se. A respiração
      do  doente  ia-se  tornando  difícil.  Correram-se  todos  os  panos  das  cortinas  e  ele  respirou
       deliciado os brandos sopros daquela noite transparente. As estrelas dirigiam-lhe a sua luz

      vacilante e a lua envolvia-o no brando lençol do seu luar.
      – Amigos  disse ele num fio de voz , dentro em pouco terei partido! Que Deus os recompense
      e conduza aonde desejam, pagando-lhes por mim a minha dívida de gratidão!
      – Tenha esperança  tornou-lhe Kennedy. É uma fraqueza passageira. O senhor não vai morrer,
      não é possível  morrer com uma noite destas!
      – A morte está aqui  volveu o missionário , bem a  pressinto. Deixem-me olhá-la de frente. A
      morte, começo da  vida eterna, é apenas o fim dos trabalhos deste mundo. Peço-lhes, meus

      irmãos, que me ajudem a ficar de joelhos!
      Kennedy soergueu-o. Dava pena ver dobrarem-se aqueles  membros exaustos.
      – Meus Deus! meu Deus!  clamava o apóstolo moribundo  tende piedade de mim! Sua face
      resplandecia.  Longe  daquela  terra,  onde  jamais  conhecera  alegrias,  em  meio  à  noite  que  o
      envolvia com suas  mais brandas claridades, a caminho do céu para o qual se  erguia como em
      ascensão  miraculosa,  parecia  já  reviver  da    existência  nova.  Seu  derradeiro  gesto  foi  uma

      bênção  suprema  àqueles  amigos  de  um  dia    e  caiu  nos  braços  de  Kennedy    por  cuja  face
      corriam grossas lágrimas.
      – Morto!  acudiu o doutor debruçando-se sobre ele.
      Morto! E os três amigos ajoelharam ao mesmo tempo para rezar em silêncio.
      – Amanhã de manhã  disse Fergusson dali a pouco   sepultá-lo-emos nesta terra de África
      regada pelo seu sangue.
      Durante o resto da noite, o corpo foi velado sucessivamente pelos três navegantes, sem que

      uma  palavra  perturbasse  o  religioso  silêncio.  Todos  choravam.  No  dia  seguinte,  o  vento
      soprava do sul e o Vitória marchava com certa ligeireza sobre vasto planalto de montanha.
      Aqui,  crateras  extintas,  ali  barrancos  incultos,  nem  uma  gota  de  água  naquelas    cristas
      ressequidas.  Rochedos  amontoados,  blocos  irregulares,  caangueiras  esbranquiçadas,  tudo
      denotava profunda esterilidade. Ao meio-dia, o doutor, a fim de proceder ao sepultamento do
      corpo,  resolveu  baixar  num  barranco,  entre  rochas  plutônicas  de  formação  primitiva.  As

      montanhas  circundantes  iriam  abrigá-lo  e  permitir-lhe  trazer  a  barca  até  ao  chão,  pois  não
      existia nenhuma árvore que pudesse oferecer-lhe ponto de amarra.
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