Page 92 - 6F CINCO SEMANAS EM UM BALÃO
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Mas,  como  ele  fizera  compreender  a  Kennedy,  em  conseqüência  de  perda  de  lastro  por
      ocasião do rapto do padre,  não podia descer agora sacrificando quantidade proporcional de
        gás.  Abriu,  pois,  a  válvula  do  balão  externo,  o  hidrogênio    vazou  e  o  Vitória  baixou

      serenamente para o barranco.
      Quando a barca tocou em terra, o doutor fechou a válvula. Joe saltou para o chão, segurando-
      se com uma das mãos  à borda exterior,  enquanto com a outra apanhava certo número de
      pedras destinadas a substituir o seu próprio peso.  Depois disto, pôde utilizar as duas mãos,
      não tardando a  amontoar na barquinha quase trezentos quilos de pedregulhos.
      O doutor e Kennedy puderam então descer por sua vez.

      O Vitória encontrava-se equilibrado e a força ascensional era  impotente para levantá-lo.
      Não havia sido preciso empregar grande número de pedras, porque os blocos apanhados por
      Joe eram extremamente pesados, o que chamou um momento a atenção de Fergusson.
      O solo estava semeado de quartzo e de rochas porfíricas.
      "Eis uma singular descoberta!"  pensou consigo o doutor.
      Enquanto isto, Kennedy e Joe afastaram-se alguns passos a fim de escolher lugar para a cova.
      Fazia calor tremendo  naquela ravina encaixada como espécie de fornalha. O sol o meio-dia

      atirava-lhe,  a  prumo,  os  seus  raios  ardentes.  Primeiro,  foi  preciso  limpar  o  terreno  dos
      fragmentos de rocha  que o entulhavam. Depois, abriu-se uma fossa bastante profunda para que
      as  feras  não  pudessem  desenterrar  o  cadáver    e  o  corpo  do  mártir  foi  ali  depositado  com
      respeito. A terra  recobriu os despojos mortais e por cima foram dispostos grossos blocos de
      pedra, à maneira de túmulo.

      Durante esse tempo, o doutor ficou imóvel e imerso nas  suas reflexões, sem mesmo ouvir o
      chamado dos companheiros que o convidavam a buscar abrigo contra o calor do dia.
      – Em que pensa, Samuel?  perguntou-lhe Kennedy.
      Num singular contraste da natureza, num curioso  efeito do acaso. Sabem em que terra este
      homem abnegado,  este pobre coração foi sepultado?
      – Não compreendo o que quer dizer  volveu o escocês.   Pois este apóstolo, que fizera voto de
      pobreza, repousa agora em mina de ouro.
      – Mina de ouro!  exclamaram Kennedy e Joe.

      – Mina de ouro  repetiu serenamente o doutor. Estes blocos que estamos calcando com os pés,
      como se fossem pedras sem valor, são mineral de grande pureza.
      Não é possível! Não é possível!  dizia Joe.
      – Se procurarmos nestas fendas de xisto cor da ardósia, encontraremos pepitas importantes.
      Joe correu como um louco para aqueles fragmentos esparsos e pouco faltou para que Kennedy

      o imitasse.   Acalma-te  disse o amo.
      – O senhor pode falar à vontade...
      – Como! Então um filósofo da sua têmpera!
      – Ah! Senhor Fergusson, não há filosofia que me impeça.   Reflita um pouco, rapaz. De que
      nos servirá toda essa riqueza se a não podemos levar conosco?
      – Não a podemos levar conosco? Ora essa!
      ...O doutor ficou imóvel e imerso nas suas reflexões...

        É um pouco pesada para a nossa barca. Até hesitei  em comunicar-lhe essa descoberta, com
      receio de excitar sua  cobiça.
      – Mas, então!  tornou Joe  abandonar estes tesouros? Deixar uma fortuna que é nossa e bem
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