Page 93 - 6F CINCO SEMANAS EM UM BALÃO
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nossa?
      – Tenha cuidado, amigo. Será que o atacou a febre do  ouro? Então o morto que acaba de
      enterrar não lhe ensinou  sobre a vaidade das coisas humanas?

      – Tudo isso é verdade, mas, enfim, trata-se de ouro!  Senhor Kennedy, não quer ajudar-me a
      apanhar alguns destes  milhões?
      – E que faremos com eles, meu pobre Joe?  volveu o  caçador, não podendo deixar de sorrir.
      Não vimos aqui buscar fortuna, nem a devemos levar.
      – São um tanto pesados, os milhões  interveio o doutor   e não é fácil mete-los no bolso.
      – Enfim  insistiu Joe, reduzido aos argumentos finais,   não será possível, em vez de areia,

      levar este mineral como  lastro?
      – Está bem, concordo!  respondeu Fergusson  mas com a condição de não fazer caretas quando
      tivermos de jogar pela borda alguns milhares de libras.
      – Milhares de libras!  tornou Joe. Será possível que  tudo isto seja ouro?
      – Sim, amigo, é uma espécie de cofre onde a natureza  há muitos séculos vem acumulando os
      seus tesouros. Há aí  com que enriquecer países inteiros! Uma Austrália e uma  Califórnia
      reunidas no fundo de um deserto!

      – E tudo isto ficará inútil?
      – Talvez! Em todo caso, aqui está o que farei para consolá-lo.
      – Será difícil  replicou Joe com ar contrito.
      – Escute. Vou levantar a planta exata desta jazida, que  lhe darei. No seu regresso à Inglaterra
      poderá  fazer  comunicação  aos  seus  concidadãos,  se  acredita  que  tanto  ouro  pode  dar-lhes

      felicidade.
      – Está bem, meu amo, vejo que tem razão. Resigno-me,  porque não posso fazer outra coisa.
      Enchamos  a  nossa  barquinha  deste  precioso  mineral.  O  que  restar  no  fim  da  viagem  será
      sempre lucro.
      E Joe pôs mãos à obra com a melhor vontade, não tardando a recolher cerca de quinhentos
      quilos  de  fragmentos    de  quartzo,  no  qual  o  ouro  se  achava  encerrado  como  ganga  de
       extraordinária pureza.
      O  doutor  observava-o  sorrindo.  Durante  o  trabalho,  anotou  a  posição  da  tumba  do

      missionário, localizada a vinte e  dois graus e vinte e três minutos de longitude e quatro graus
        e  cinqüenta  e  cinco  minutos  de  latitude  setentrional.  Lançando  depois  derradeiro  olhar  à
      intumescência do solo sob a qual repousava o corpo do jovem francês, regressou á barquinha.
      Gostaria de plantar uma cruz modesta e rude sobre aquele  túmulo abandonado em meio aos
      desertos da África, mas não  se avistava nenhuma árvore nos arredores.

      – Deus se lembrará  disse ele.
      Uma  preocupação  bastante  séria  ia-se  insinuando  no  espírito  de  Fergusson  que  teria  dado
      muito daquele ouro para  encontrar um pouco de água. Queria substituir a que lançara  fora
      com a caixa, por causa do negro que se agarrara à barca,  mas isso era impossível naqueles
      terrenos  áridos.  O  problema  não  cessava  de  preocupá-lo.  Obrigado  a  alimentar
      constantemente  o  maçarico,  começava  a  achar-se  à  míngua  de  recursos    para  satisfazer  às
      necessidades da sede. Prometeu a si mesmo  não desprezar nenhuma ocasião de renovar a

      reserva.
      De volta à barca, achou-a atravancada com as pedras do  cobiçoso rapaz e subiu sem dizer
      nada. Kennedy tomou o  seu lugar costumeiro e Joe seguiu-os, não sem atirar olhar  lamentoso
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