Page 95 - 6F CINCO SEMANAS EM UM BALÃO
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PREOCUPAÇÕES DE Fergusson





      O  Vitória,  amarrado  a  uma  árvore  solitária  e  quase  seca  passou  a  noite  em  perfeita
      tranqüilidade. Os viajantes  puderam usufruir um pouco de sono de que andavam necessitados.
      As emoções dos dias anteriores tinham-lhes deixado penosas recordações.
      De manhã, o céu retomou a sua lustrosa limpidez e o  seu calor. O balão ergueu-se nos ares e,
      após várias tentativas malogradas, encontrou corrente, embora pouco rápida, que o  levou para

      noroeste.
      – Não estamos avançando mais  observou o doutor ,  e se não me engano realizamos metade da
      nossa viagem em  cerca de dez dias, mas na velocidade em que vamos necessitaremos meses
      para concluí-la. Isso é tanto mais desagradável quanto estamos ameaçados de ficar sem água.
      – Havemos de encontrá-la  respondeu Dick. É impossível não descobrirmos algum rio, algum
      riacho, uma poça  nesta enorme extensão de terra.

      – Deus o queira!
      – Não será o carregamento de Joe que atrasa a nossa  marcha?
      Kennedy  falava  assim  para  divertir-se  com  o  excelente    rapaz  e  fazia-o  de  tanto  melhor
      vontade  quanto  ele  mesmo  experimentara,  por  instante,  as  alucinações  de  Joe.  Como  nada
      deixara  transparecer,  alardeava  espírito  forte,  sempre  sorridente.  Pensava  agora,  não  sem
      secretos  terrores,  nas  vastas  solidões  do  Saara,  onde  se  passam  semanas  sem  que  as
       caravanas encontrem um poço onde matar a sede. Passou a  observar com minuciosa atenção

      as mais insignificantes depressões do solo.
      Essas precauções e os últimos incidentes tinham sensivelmente modificado a disposição de
      espírito  dos  três  viajantes,    que  falavam  menos  e  se  absorviam  mais  em  seus  próprios
      pensamentos.
      O bom Joe não era já o mesmo desde que os seus olhos tinham mergulhado naquele oceano de
      ouro.  Calava-se,  olhando  com  avidez  as  pedras  amontoadas  no  fundo  da  barca,  então  sem

      valor mas depois inapreciáveis.
      O aspecto daquela parte da África era realmente inquietador. O deserto ia surgindo pouco a
      pouco.  Nenhuma  aldeia    mais,  sequer  uma  reunião  de  cubatas.  A  vegetação  tornava-se
        escassa,  apenas  algumas  plantas  definhadas  como  nos  terrenos  arenosos  da  Escócia,  um
      começo de areias alvacentas e de pedras calcinadas, alguns lentiscos e moitas espinhosas. Em
      meio  a essa esterilidade, a carcaça sedimentar do globo surgia em  arestas de rochas vivas e
      cortantes. Aqueles sintomas de aridez davam que pensar ao doutor Fergusson, mas agora não

      era  possível recuar. Tinham de ir para diante e o doutor não desejava outra coisa. O que
      poderia desejar ainda era que  uma tempestade o levasse para longe daquela região. E nem
       uma nuvem no céu! No fim do dia o Vitória não tinha progredido cinqüenta quilômetros.
      Se ao menos não faltasse água! Mas restavam ao todo quinze litros! Fergusson separou cinco
      litros destinados a mitigar a sede ardente que um calor de cinqüenta graus centígrados tornava
      intolerável. Restavam ainda dez litros para  alimentar o maçarico, que produziriam dezessete

      mil  litros  de    gás,  enquanto  o  maçarico  gastava  mais  ou  menos  trezentos    litros  por  hora;
      tinham, portanto, pela frente, cinqüenta e  quatro horas de marcha. Todos os cálculos eram
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