Page 96 - 6F CINCO SEMANAS EM UM BALÃO
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rigorosamente matemáticos.
      – Cinqüenta e quatro horas!  disse ele aos companheiros. Ora, como eu estou bem decidido a
      não viajar de  noite, com receio de que me escape algum regato, uma fonte  ou uma poça,

      dispomos de três dias e meio de viagem, no decorrer dos quais precisamos encontrar água a
      qualquer preço. Julgo dever preveni-los desta grave situação, caros amigos, porque apenas
      reservei cinco litros para a nossa sede e  devemos sujeitar-nos a severo racionamento.
      – Pois racione  respondeu o caçador , mas ainda não  é caso para desesperar. Temos três dias
      à nossa frente?
      – Justamente, meu caro Dick.

      – Como nada adiantaríamos com lamentações, haverá tempo de tomar uma resolução durante
      esses três dias. O essencial é redobrarmos de vigilância.
      Na  refeição  da  noite,  a  água  foi  rigorosamente  distribuída.  A  quantidade  de  aguardente
      aumentou nos grogues,  mas convinha desconfiar da bebida, mais própria a dar sede  do que a
      matá-la.
      A barca pousou, à noite, em imenso platô que apresentava forma de depressão, a uma altura de
      duzentos  e  sessenta    metros  acima  do  nível  do  mar.  Essa  circunstância  devolveu    alguma

      esperança  ao  doutor,  lembrando-lhe  as  presunções  dos  geógrafos  acerca  da  existência  de
      vasto lençol de água no centro da África. Se o lago existia, era indispensável alcançá-lo, mas
      nenhuma mudança se produzia no céu sereno.
      A noite tranqüila, à sua estrelada magnificência, sucederam o dia inalterável e os ardentes
      raios do sol. Logo aos  primeiros alvores, a temperatura foi-se fazendo escaldante.  Às cinco

      horas da manhã, o doutor deu o sinal de partida e  durante largo espaço de tempo o Vitória
      permaneceu  sem    movimento  em  atmosfera  plúmbea.  O  doutor  poderia  escapar    ao  calor
      intenso, refugiando-se nas zonas superiores, mas seria  preciso consumir maior quantidade de
      água, coisa impossível  na ocasião. Contentou-se, pois, em manter o aeróstato a trinta  metros
      do solo, sob leve corrente que o impelia para o horizonte ocidental. O almoço compôs-se de
      um pouco de carne seca e alguma conserva. Ao meio-dia, o Vitória escassamente  percorrera
      alguns quilômetros.
      –  Não  podemos  andar  mais  depressa    esclareceu  o  doutor.  Aqui  não  comandamos,

      obedecemos.
      – Ah!  Meu  caro  Samuel    acudiu  o  caçador  ,  nesta    ocasião  um  propulsor  viria  mesmo  a
      propósito!
      – Realmente, mas desde que ele não precisasse de água  para pôr-se em movimento, porque,
      então, a situação seria  a mesma. Aliás, até hoje não se inventou nada praticável.

      Os balões estão ainda no ponto em que se encontravam os  navios antes da invenção do vapor.
      Foram precisos seis mil  anos para inventar as pás e as hélices, de modo que temos  ainda
      muito que esperar.
      – Maldito calor!  disse Joe, enxugando a testa molhada de suor.
      O solo, entretanto, ia-se deprimindo cada vez mais.
      – Se houvesse água, este calor nos prestaria certo serviço, porque dilataria o hidrogênio do
      aeróstato, podendo ser  mais fraca a chama da serpentina. Mas também e verdade  que se não

      estivéssemos à míngua de líquido não precisaríamos economizá-lo. Ah! Maldito selvagem que
      nos custou  aquela preciosa caixa.
      – Não se arrepende do que fez, Samuel?
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