Page 97 - 6F CINCO SEMANAS EM UM BALÃO
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– Não, Dick, visto que pudemos salvar aquele infeliz  de morte horrível. Em todo caso, a água
      que jogamos fora  bem útil nos seria nesta ocasião. Seriam mais doze ou treze dias de marcha
      garantidos, com certeza o suficiente para atravessar este deserto.

      – De qualquer modo já fizemos metade da viagem?   perguntou Joe.
      –  Como  distância  creio  que  sim,  mas  não  como  duração  se  o  vento  abandonar-nos.  E  a
      verdade é que ele está com  tendência a diminuir.
      – Vamos, meu amo  tornou Joe , não há razão para  queixas. Até aqui temo-nos saído bem, e,
      seja como for, não  consigo perder as esperanças. Havemos de encontrar água,  é o que lhe
      digo.

      O solo, entretanto, ia-se deprimindo cada vez mais. As  ondulações das montanhas auríferas
      vinham morrer na planície, como os derradeiros esforços de uma natureza exausta.  As ervas
      esparsas substituíam as belas árvores do leste e algumas faixas de verdura ressequida lutavam
      ainda contra a  invasão das areias. Os enormes pedregulhos caídos dos cimos  distantes, e
      esmagados na queda, tinham-se esboroado em seixos agudos que logo seriam saibro grosso e
      mais além poeira  impalpável.
      – Eis a África tal como a imaginava, Joe. Razão tinha eu para recomendar paciência!

      – Então, meu amo, isto pelo menos é natural: calor e  areia! Absurdo seria procurar outra
      coisa em semelhante terra.  Eu nunca acreditei muito nos prados e florestas de que o  senhor
      me falava  acrescentou ele. Era um contra-senso!  Não valia a pena vir de tão longe para
      encontrar  os  mesmos    campos  de  Inglaterra! Agora  é  que  eu  verdadeiramente  me  sinto  na
      África e não me importo de lhe sofrer um pouco os  inconvenientes.

      À tarde, o doutor verificou que o Vitória não progredira  trinta quilômetros naquela jornada
      ardente. Treva abafada  envolveu-os logo que o sol desapareceu no horizonte, que aparecia
      com nitidez de linha reta.
      O  dia  seguinte  era  quinta-feira,  primeiro  de  maio,  mas  os  dias  sucediam-se  com
      desesperadora  monotonia.  Cada  manhã  era  igual  à  manhã  que  a  precedera,  o  meio-dia
      lançava em profusão os mesmos raios sempre inesgotáveis e a noite  condensava em sua treva
      o calor esparso que o dia seguinte  com toda a certeza transmitiria à noite seguinte. O vento,
        apenas  perceptível,  ia-se  tornando  mais  expiração  do  que  sopro  e  podia-se  pressentir  o

      momento em que até esse mesmo  hálito se extinguiria.
      O doutor reagia contra a tristeza daquela situação, conservando a calma e o sangue-frio de um
      coração  intrépido.    De  óculo  em  punho  ia  esquadrinhando  todos  os  pontos  do    horizonte,
      vendo decrescer insensivelmente as derradeiras colinas, apagar-se a última vegetação e surgir
      à sua frente a  imensidade do deserto. A responsabilidade que lhe pesava  afetava-o muito,

      embora não o deixasse transparecer. Tinha  arrastado aqueles dois homens, Dick e Joe, ambos
      amigos,  para tão longe, quase pela força da amizade ou do dever.  Fizera bem? Não estaria
      tentando caminhos proibidos? Não  andaria tentando, naquela viagem, transpor os limites do
      impossível?  Não  teria  Deus  reservado  para  séculos  futuros  o  conhecimento  do  ingrato
      continente?
      Todas estas idéias, como sucede nas horas de desalento,  se lhe multiplicavam na cabeça e por
      irresistível associação delas Samuel deixava-se arrastar para além da lógica e do raciocínio.

       Depois de haver analisado o que não deveria ter feito, perguntava-se o que deveria fazer
      agora. Seria impossível voltar  atrás? Não existiriam correntes superiores que o levassem a
      regiões menos áridas? Conhecedor das terras por que já passara, ignorava as que estavam
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